Os botões daquela florzinha pequenininha que esqueci o nome nascem e secam antes de desabrochar.
O lírio da paz tá murcho, folhas secas, um pedaço ou outro de cor. Virou um pedaço de guerra.
Sei que esse jardim é seu xodó. Por isso estou te avisando: se não quiser perdê-lo, fala praquele menino, seu ex-namorado, pra que venha visitar o jardim. Uma passada basta. Ele vem, olha, fica um pouquinho e vai embora.
As flores do jardim da sua casa vão morrer todas de saudade dele. Pra alguns males, não há pesticida.
*
Como seria se as nossas histórias preferidas tivessem acontecimentos paralelos?
Escrevi esse texto imaginando um diálogo a partir de uma passagem da minha peça teatral preferida, "Música para cortar os pulsos".
de luz quente amarela e brilho oscilante: um sol preso em um vidrinho
O pisca-pisca plástica alegria de luz fria branca e brilho
ritmado:
um vaga-lume no breu
A planta Verde vida entre concreto Observa e almeja beber daquela confinada luz
e não entende aquele inseto que nunca se achega para conversar no silêncio da noite
***
Eu comecei esse texto no início do ano, durante um curso de escrita criativa com a Liana Ferraz. Essa foi a atividade da primeira aula, na qual deveríamos observar três objetos ao nosso redor e compor um texto a partir disso. Escolhi os três que pra mim se relacionavam de algum modo e comecei a escrever. Passei o ano todo olhando pro texto e mudando alguma coisa, pra mim nunca estava bom haha Cheguei nesse resultado e parei, mais pelo cansaço do que pela convicção. Tem coisa que se não for assim, não é nunca.
Nos invernos da minha infância, minha mãe esquentava água no fogão para que eu lavasse o rosto de manhã e escovasse os dentes. Agora, adulta, eu queria essa magia em todos os invernos: Alguém pra esquentar a água pra lavar a louça E pra esquentar muito e muito a água do chuveiro E pra esquentar o ar frio que entra pela janela. O frio dói demais. O que ele precisa, é de uma mãe.
sábado, 10 de agosto de 2024
Hoje pela manhã encontrei pelo caminho um jabuti na calçada tomando banho de sol. Ele se chamava Pipoca. Fiquei pensando comigo, poxa, que chance desperdiçada de chamá-lo de Jabuticaba. O jabuti Jabuticaba. Me deu uma vontade de ter um jabuti e chamá-lo de Jabuticaba. Será que ele se daria bem com a Celeste? Poderiam tomar banho de sol juntos.
Voltando para casa, peguei na caixa de correios várias correspondências esquecidas. Por incrível que pareça, duas eram escritas à mão. Uma delas era um convite de uma igreja, me chamando para a celebração da morte de Jesus Cristo. Achei meio sinistro celebrar a morte de alguém. Junto com a carta vinha um folheto com um desenho de Jesus, que mais parecia uma mistura de Antonio Banderas e Caio Blat. Achei engraçado.
A festa foi em março, estamos em agosto. De todo modo, eu não iria mesmo.
Por coincidência, a carta era assinada por uma mulher chamada Geni, o mesmo nome de uma tia minha já falecida. E daquela música do Chico Buarque.
Espero que a Geni tenha aproveitado a festa.
(Tentativa #1 de escrever em fluxo de consciência.)
Se a única certeza que temos na vida é a de que vamos morrer, o que exatamente isso significa?
Quando se morre, o corpo some da presença das pessoas, da casa, dos lugares. Nessa perspectiva, o corpo desaparece. Porém, a lembrança para aqueles que ficam, a voz, o cheiro, fazem com que a pessoa não desapareça. Ela continua existindo, de outros jeitos. Também a matéria do corpo não desaparece, ela se transforma. A forma do corpo desaparece, mas a matéria que o constitui, não.
E os sentimentos? Quando começam a existir, quando se transformam, quando desaparecem (eles desaparecem?).
Li esse livro pensando em Lavoisier, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Marisa Monte… E a minha cabeça virou uma confusão de todos os significados possíveis para “desaparecer”, “deixar de existir”, “morrer”…
Talvez “desaparecer” seja uma palavra genérica que guarda um mistério e muitas camadas de sentidos.
Talvez tudo seja uma mistura de todas essas palavras e termos… Uma coisa deixa de existir de um modo, se transforma e passa a existir de outro.
Mas talvez eu esteja viajando muito e amanhã nada disso faça sentido pra mim. Aí eu apago esse texto e ele deixa de existir
(ou não).
*
Me acompanharam na leitura:
Poema de Natal (Vinicius de Moraes)
[...]
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
[...]
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
*
Pelo tempo que durar (Marisa Monte)
Nada vai permanecer
No estado em que está
[...]
Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
[...]
Coisas vão se transformar
Para desaparecer
E eu pensando em ficar
A vida a te transcorrer
[...]
*
Feito pra acabar (Marcelo Jeneci)
[...]
A gente é feito pra acabar Ah Aah A gente é feito pra dizer Que sim A gente é feito pra caber No mar E isso nunca vai ter fim Uh Uhhh
*
Imergir (Silva)
[...]
Você tem seus motivos
E os cacos no jardim
Não vou tentar juntá-los
Melhor deixar o mar varrer
Navios dizem recomeço
Do mar ninguém chegou ao fim
Eu vou deixar seu nome imergir
[...]
Cartas, imergi-las
Fotos, imergi-las
Datas, imergi-las
Discos, imergi-los
Livros, imergi-los
Beijos, imergi-los
Rastros, imergi-los
Pro seu fim
[...]
*
Ao longo do livro, há várias referências a frutas e ao ovo (da galinha mesmo haha), cuja inspiração acredito que veio do famoso texto "O ovo e a galinha" da Clarice Lispector. Ele pode ser lido nesse link.