domingo, 15 de dezembro de 2024

Isabela, a situação do jardim vai de mal a pior.

As roseiras estão só caule e espinho.

A azaleia perdeu todas as flores.

Os botões daquela florzinha pequenininha que esqueci o nome nascem e secam antes de desabrochar.

O lírio da paz tá murcho, folhas secas, um pedaço ou outro de cor. Virou um pedaço de guerra.

Sei que esse jardim é seu xodó. Por isso estou te avisando: se não quiser perdê-lo, fala praquele menino, seu ex-namorado, pra que venha visitar o jardim. Uma passada basta. Ele vem, olha, fica um pouquinho e vai embora.  

As flores do jardim da sua casa vão morrer todas de saudade dele. Pra alguns males, não há pesticida.

*

Como seria se as nossas histórias preferidas tivessem acontecimentos paralelos? 

Escrevi esse texto imaginando um diálogo a partir de uma passagem da minha peça teatral preferida, "Música para cortar os pulsos".



segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Vento


temos de ser leves

para resistir ao vento


e até quando 

teremos

tempo saúde força 

para resistir a esse vento?


ele que nos rouba o ar 

ele que nos rouba de nós


é longa essa caminhada pelo fio da navalha

de angústia é a espera pelo tempo dos domingos


venta em demasia

e frágil é nossa leveza


Da exposição "Os dias estão numerados", Daniel Blaufuks.

Do livro "Sob a luz feroz do teu rosto", Eucanaã Ferraz.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Na sala

No diminuto território da sala

três elementos se observam


A vela
O pisca-pisca
A planta

A vela
pequeno mistério 
de luz quente amarela e brilho oscilante:
um sol preso em um vidrinho

O pisca-pisca
plástica alegria
de luz fria branca e brilho
ritmado:
um vaga-lume no breu

A planta
Verde vida
entre concreto
Observa e almeja
beber daquela
confinada luz

e não entende aquele inseto
que nunca se achega para conversar
no silêncio da noite



***
Eu comecei esse texto no início do ano, durante um curso de escrita criativa com a Liana Ferraz. Essa foi a atividade da primeira aula, na qual deveríamos observar três objetos ao nosso redor e compor um texto a partir disso. Escolhi os três que pra mim se relacionavam de algum modo e comecei a escrever. Passei o ano todo olhando pro texto e mudando alguma coisa, pra mim nunca estava bom haha Cheguei nesse resultado e parei, mais pelo cansaço do que pela convicção. Tem coisa que se não for assim, não é nunca.

domingo, 6 de outubro de 2024

Inverno

Nos invernos da minha infância, minha mãe esquentava água no fogão para que eu lavasse o rosto de manhã e escovasse os dentes.
Agora, adulta, eu queria essa magia em todos os invernos:
Alguém pra esquentar a água pra lavar a louça
E pra esquentar muito e muito a água do chuveiro
E pra esquentar o ar frio que entra pela janela.
O frio dói demais.
O que ele precisa, é de uma mãe.

sábado, 10 de agosto de 2024

Hoje pela manhã encontrei pelo caminho um jabuti na calçada tomando banho de sol. Ele se chamava Pipoca. Fiquei pensando comigo, poxa, que chance desperdiçada de chamá-lo de Jabuticaba. O jabuti Jabuticaba. Me deu uma vontade de ter um jabuti e chamá-lo de Jabuticaba. Será que ele se daria bem com a Celeste? Poderiam tomar banho de sol juntos.

Voltando para casa, peguei na caixa de correios várias correspondências esquecidas. Por incrível que pareça, duas eram escritas à mão. Uma delas era um convite de uma igreja, me chamando para a celebração da morte de Jesus Cristo. Achei meio sinistro celebrar a morte de alguém. Junto com a carta vinha um folheto com um desenho de Jesus, que mais parecia uma mistura de Antonio Banderas e Caio Blat. Achei engraçado.

A festa foi em março, estamos em agosto. De todo modo, eu não iria mesmo.

Por coincidência, a carta era assinada por uma mulher chamada Geni, o mesmo nome de uma tia minha já falecida. E daquela música do Chico Buarque.

Espero que a Geni tenha aproveitado a festa.


                                                        (Tentativa #1 de escrever em fluxo de consciência.)

domingo, 2 de junho de 2024

Poema do desaparecimento (Laura Liuzzi)

Se a única certeza que temos na vida é a de que vamos morrer, o que exatamente isso significa? 

Quando se morre, o corpo some da presença das pessoas, da casa, dos lugares. Nessa perspectiva, o corpo desaparece. Porém, a lembrança para aqueles que ficam, a voz, o cheiro, fazem com que a pessoa não desapareça. Ela continua existindo, de outros jeitos. Também a matéria do corpo não desaparece, ela se transforma. A forma do corpo desaparece, mas a matéria que o constitui, não.  

E os sentimentos? Quando começam a existir, quando se transformam, quando desaparecem (eles desaparecem?). 

 

Li esse livro pensando em Lavoisier, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Marisa Monte… E a minha cabeça virou uma confusão de todos os significados possíveis para “desaparecer”, “deixar de existir”, “morrer”… 

 

Talvez “desaparecer” seja uma palavra genérica que guarda um mistério e muitas camadas de sentidos.

Talvez tudo seja uma mistura de todas essas palavras e termos… Uma coisa deixa de existir de um modo, se transforma e passa a existir de outro. 

Mas talvez eu esteja viajando muito e amanhã nada disso faça sentido pra mim. Aí eu apago esse texto e ele deixa de existir

(ou não).


*

Me acompanharam na leitura:

Poema de Natal (Vinicius de Moraes)

[...]


Assim será a nossa vida: 


Uma tarde sempre a esquecer 

Uma estrela a se apagar na treva 

[...]


De repente nunca mais esperaremos... 

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas 

Nascemos, imensamente.


*

Pelo tempo que durar (Marisa Monte)


Nada vai permanecer

No estado em que está

[...]

Geleiras vão derreter

Estrelas vão se apagar

[...]

Coisas vão se transformar

Para desaparecer

E eu pensando em ficar

A vida a te transcorrer

[...]



* 

Feito pra acabar (Marcelo Jeneci)

[...]

A gente é feito pra acabar
Ah Aah
A gente é feito pra dizer
Que sim
A gente é feito pra caber
No mar
E isso nunca vai ter fim
Uh Uhhh



*

Imergir (Silva)


[...]

Você tem seus motivos

E os cacos no jardim

Não vou tentar juntá-los

Melhor deixar o mar varrer

Navios dizem recomeço

Do mar ninguém chegou ao fim

Eu vou deixar seu nome imergir

[...]

Cartas, imergi-las

Fotos, imergi-las

Datas, imergi-las

Discos, imergi-los

Livros, imergi-los

Beijos, imergi-los

Rastros, imergi-los

Pro seu fim

[...]


*

Ao longo do livro, há várias referências a frutas e ao ovo (da galinha mesmo haha), cuja inspiração acredito que veio do famoso texto "O ovo e a galinha" da Clarice Lispector. Ele pode ser lido nesse link.