domingo, 2 de junho de 2024

Poema do desaparecimento (Laura Liuzzi)

Se a única certeza que temos na vida é a de que vamos morrer, o que exatamente isso significa? 

Quando se morre, o corpo some da presença das pessoas, da casa, dos lugares. Nessa perspectiva, o corpo desaparece. Porém, a lembrança para aqueles que ficam, a voz, o cheiro, fazem com que a pessoa não desapareça. Ela continua existindo, de outros jeitos. Também a matéria do corpo não desaparece, ela se transforma. A forma do corpo desaparece, mas a matéria que o constitui, não.  

E os sentimentos? Quando começam a existir, quando se transformam, quando desaparecem (eles desaparecem?). 

 

Li esse livro pensando em Lavoisier, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Marisa Monte… E a minha cabeça virou uma confusão de todos os significados possíveis para “desaparecer”, “deixar de existir”, “morrer”… 

 

Talvez “desaparecer” seja uma palavra genérica que guarda um mistério e muitas camadas de sentidos.

Talvez tudo seja uma mistura de todas essas palavras e termos… Uma coisa deixa de existir de um modo, se transforma e passa a existir de outro. 

Mas talvez eu esteja viajando muito e amanhã nada disso faça sentido pra mim. Aí eu apago esse texto e ele deixa de existir

(ou não).


*

Me acompanharam na leitura:

Poema de Natal (Vinicius de Moraes)

[...]


Assim será a nossa vida: 


Uma tarde sempre a esquecer 

Uma estrela a se apagar na treva 

[...]


De repente nunca mais esperaremos... 

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas 

Nascemos, imensamente.


*

Pelo tempo que durar (Marisa Monte)


Nada vai permanecer

No estado em que está

[...]

Geleiras vão derreter

Estrelas vão se apagar

[...]

Coisas vão se transformar

Para desaparecer

E eu pensando em ficar

A vida a te transcorrer

[...]



* 

Feito pra acabar (Marcelo Jeneci)

[...]

A gente é feito pra acabar
Ah Aah
A gente é feito pra dizer
Que sim
A gente é feito pra caber
No mar
E isso nunca vai ter fim
Uh Uhhh



*

Imergir (Silva)


[...]

Você tem seus motivos

E os cacos no jardim

Não vou tentar juntá-los

Melhor deixar o mar varrer

Navios dizem recomeço

Do mar ninguém chegou ao fim

Eu vou deixar seu nome imergir

[...]

Cartas, imergi-las

Fotos, imergi-las

Datas, imergi-las

Discos, imergi-los

Livros, imergi-los

Beijos, imergi-los

Rastros, imergi-los

Pro seu fim

[...]


*

Ao longo do livro, há várias referências a frutas e ao ovo (da galinha mesmo haha), cuja inspiração acredito que veio do famoso texto "O ovo e a galinha" da Clarice Lispector. Ele pode ser lido nesse link.

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