domingo, 23 de novembro de 2025

Centauro alado

Foi um centauro arqueiro que me atingiu. Ou um cupido.

A flecha veio devagar, porém decidida e certeira.

Do corte que ela abriu na minha carne, emergiu a lembrança daquela imagem.

Foi um centauro arqueiro que me atingiu, com os cascos firmes no chão e o arco e flecha voltados para o céu.

Foi também um cupido que me atingiu, voando acima das nuvens e com o arco e flecha apontados para a terra.

Pois era ali que eu estava:

Naquele espaço flutuante entre terra e céu ‒ o lugar que alcançamos
com um livro nas mãos.


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A lembrança da performance “The Other: Rest Energy” da Marina Abramović me veio de imediato durante a leitura do poema “Sim/não” do Eucanaã Ferraz, no livro “Sob a luz feroz do teu rosto”. Foi como se ele tivesse sido escrito para descrever a performance.

Apenas no dia seguinte, olhei para a capa do livro – que até então eu achava bem feinha – e fiquei atônita.

Essa coincidência veio no ano em que se completam 10 anos desde que ouvi falar pela primeira vez da Marina Abramović, essa artista que tem vários parafusos a menos na cabeça. E publico esse texto com o sol entrando em sagitário, signo meu e da Marina. O símbolo de sagitário? O centauro arqueiro.

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Para quem quiser ler mais textos meus sobre a Marina Abramović, já escrevi sobre ela aqui:

sábado, 8 de novembro de 2025

Mexerica

singela, sou mexerica

elegante, sou tangerina 

excêntrica, sou bergamota. 

 

verde, não estou pronta

laranja, é outra fruta

em gomo, sou meia-lua.


com r no fim, sou verbo no infinitivo

no masculino, sou intriga

na sua mão, sou perfume. 


Esse texto nasceu depois que um vídeo no YouTube foi sugerido a mim. Nele, uma moça contava que havia feito um curso de escrita com a Ana Holanda, que em determinado momento, projetou a imagem de uma mexerica e deu 13 minutos para que a turma escrevesse sobre a fruta. Eu fiquei encantada com a proposta. De imediato me surgiram várias ideias e comecei a escrever. Levei bem mais do que 13 minutos, mas foi uma experiência e tanto. 
Explorar as possibilidades das palavras e seus mundos é um exercício muito rico. E escrever voltada para os detalhes que as coisas simples possuem pode nos render muitas boas surpresas!